Na Beleza E Na Dor

Não era um sábado tão comum para Paula. Ela acordou às 8 horas e já foi logo escolhendo uma roupa impecável e os seus saltos preferidos, para não sofrer tanto com o dia que tinha pela frente. Paula não acostumava acordar tão cedo aos sábados, mas era o preço para poder cuidar da sua beleza, pelo menos uma vez por mês.
Passou no shopping escolheu algumas roupas, resistiu à insistência das vendedoras e parcelou no cartão, essa era melhor parte. Às 11 horas chegou à porta do salão e respirou fundo antes de entrar. Há primeira vista parece tudo muito bom: mulheres saindo de lá lindas, pessoas conversando sobre a vida alheia... Sentou-se esperou uns dez minutos vendo fotos de famosos na Ilha de Caras, até ser chamada para a primeira fase do dia.
Chegou na sala, tirou a roupa e se acomodou na maca. Era impossível não ficar tensa vendo aquela sala, a moça chegou conversando pouco e já perguntando:
- Iai que vamos fazer hoje?
- Perna, cantinho e axila.
Tudo sempre parece melhor do que é. Paula via o prazer nos olhos da mulher, antes de começar. Ao iniciar o papo vai fluindo enquanto a moça passa o rolinho quentinho na sua perna, chega até ser agradável, mas ai ela gruda o papel e o tique de Paula começa, olho esquerdo treme. Ai ela puxa... “Aaaaaaah, fdp! Qual é o seu problema, tá querendo arrancar o meu couro?”, tudo pensamento, na verdade o único som que ela emitiu foi um gemido enquanto prendia a respiração e continuou a conversa sobre a novela das 8. Acabou a perna, hora das regiões mais sensíveis e dessa vez Paula tem certeza, que o nome do modelo é bigodinho de Hitler, porque era um tipo de tortura usada nos campos nazistas. Quando chega nas axilas, a dormência já tomou conta da pele de todo o corpo.
Despregando a calcinha dos resíduos de cera que ficou na pele, Paula vai para o próximo passo. É encaminhada ao lavatório, sente um pouco de dor no pescoço enquanto a ajudante lava seu cabelo e tenta vender uma marca milagrosa de shampoo. Já na cadeira do cabeleireiro explica como quer o seu corte e suas mexas e ai já chega à manicure para fazer as unhas também. É raro ter uma manicure calada e que não tire um bife, essa apesar de falar da vida de todos do salão, e Paula saber que também falava da dela, era a única que tirava seus cantos de unha, mas naquele dia ela sentiu que o cantinho do dedão ia ficar dolorido. Quando tudo acabou Paula percebeu que já era mais de 1 hora da tarde, e pensou em dar um tempo para o almoço, mas desistiu quando viu que seu cabelo estava uma juba cheia de papel laminado.
Após alguns minutos de fofoca e do estomago gritando, chegou a hora de tirar a tinta. Depois de meia hora no lavatório para tirar a tinta e desembaraçar a juba que o cabeleireiro tinha deixado, Paula pensou seriamente que o cabeleireiro tinha alguma coisa contra ela. Prosseguiu para escova e avaliação do resultado e viu que ele exagerou um pouquinho e cortou mais do que ela queria, mas ainda sim, estava se sentindo bonita.
Na hora de ir agradeceu e parcelou, novamente, no cartão. E...
- Drogaaaaa...
A unha pipocou. Paula xinga o vento que passa, mas corre porque já são 4 horas e seu estomago parece vibrar.
18 horas e Paula chega em casa, tentando esquecer das parcelas que pagaria no mês que vem.
 Apesar de exausta, toma um banho mais demorado para tirar o grude da cera e se arruma para ficar linda e sair com o namorado. Sai mancando um pouco ate o carro, devido a sua unha machucada pela manicure carniceira.
- Oi amor,
- Oi, essa saia não ta muito curta não.
- A saia não, mas meu cabelo sim!
- Ah! Ta bom, olha só, não vamos demorar muito hoje, porque eu to cansado não tenho essa vida fácil de salão que você tem sabe.

- Ok! Fala Paula com um ódio mortal e com um ardor na virilha, porém no fundo aliviada.

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