País das Maravilhas

Já haviam passado 10 anos sem nenhum encontro do, icônico e seleto, grupo das princesas dos contos infantis, até o acaso as reunirem em uma rede social. Depois de muita dificuldade para conciliar as agendas, o evento foi marcado na fazenda onde morava a Branca de Neve.
A primeira a chegar, foi a Bela (da Fera), que deparou-se com uma pequena fazenda, milimetricamente projetada para ser rústica e agradável. Tocou a campainha, mas ao abrir a porta, não encontrou uma Branca, tão branca assim. Com a cor da pele alaranjada, efeito dos jatos de bronzeamento artificial, que fizera há alguns meses antes de saber que estava grávida do seu quarto filho.
- Bé, quanto tempo! Você está ótima, com o mesmo rostinho.
- Nossa, foram tantos anos. Olha para você, está mais corada e essa barriguinha?
- É amiga, mais um para família!
As amigas entraram e acomodaram-se, continuando a botar o papo em dia.
- E você, me conta ainda tá com o Fera?
Bela da um sorriso leve, mas zombeteiro.
- O Fera já é passado. Quero dizer, eu o amava de verdade e foi difícil superar o termino depois de tudo o que passamos juntos. O fato é que, após a quebra da maldição e toda aquela beleza perfeitinha, eu meio que... perdi a atração. Eu tentei por um tempo, simplesmente, não rolou. Você me entende não é amiga? Conclui Bela, com uma expressão de confusão no rosto, como se ao escutar sua própria voz contando aquela história, percebesse que ela não faz sentido algum.
- Hunhum. Disse Branca balançando a cabeça positivamente, tentando convencê-la com sua expressão de que tudo era perfeitamente coerente.
- Pois é, passou e a fila andou.
Em seguida, ela narra, que terminou recentemente um rolo de algum tempo, com o corcunda de Notre Dame porque ele mora longe. Sem surpresas, Branca sabia que, apesar de sua incontestável beleza, Bela sempre teve gostos exóticos na escolha dos seus namorados.
Enquanto esperavam as outras garotas, Branca tentou matar o tempo, mostrando seus álbuns de família. Onde se inicia, pelo seu casamento, logo depois pelo nascimento dos seus filhos, os mesmos que estavam brincando no lago da residência. Bela não disfarçou sua dúvida:
- Branca, eu só não entendi direito o que aconteceu. E o seu príncipe? E o palácio dele?
- As famílias reais estavam em declínio, o povo não queria mais sustentar a monarquia, o parlamentarismo foi implantado e o pai do príncipe não conseguiu entrar na política, ficamos sem o dinheiro dos impostos do povoado. Você sabe quanto custa para manter um palácio daqueles? Sem respostas, apenas suspiros, pois ambas não sabiam exatamente quanto, mas tinham noção que era muito dinheiro.
Branca conta, que ainda tinha a herança do seu pai. Definitivamente, não era muita coisa, já que antes de morrer a Madrasta havia gastado quase tudo, inclusive chegou a vender vários bens. A sorte, foi um livro deixado pela velha, que ensina como envenenar maçãs. Com a habilidade adquirida na faculdade de química, por Branca e com ajuda financeira dos sete anões para custear o novo negócio, ela adaptou a toxina para ser usada como agrotóxico em pomares. Hoje, o casal era uma promessa empreendedora, já tinham até umas terras próprias para plantação. A função do Príncipe era vender o produto para outros agricultores, por isso, quase sempre estava viajando.
- O laboratório, funciona aqui nas terras e eu fico muito tempo só em casa. No fim das contas, eu criei gosto por uma casa cheia de filhos. Conta Branca.
Blinblón!
Branca atende. Dessa vez vão entrando entre beijos e abraços: Aurora (Bela Adormecida) e Jasmim (Aladim).
- Fiquem a vontade. Quase esqueci... vou pegar o chá e os biscoitos. Diz a Branca.
Aurora faz cara feia, mas se aguenta, pois estava em tratamento para conter uma compulsão alimentar, desenvolvida após o termino do casamento.
- Gente que saudades! E ai Aura, como vão os espetáculos? Pergunta Bela.
- Não tô em cartaz no momento. Quando a gente está mais de 20 kg acima do peso se torna difícil. Conta Aurora, que foi por muito tempo, uma das atrizes em ascensão da Broadway.
Branca volta com uma bandeja recheada de comidas e conduz o assunto para Jasmim.
- Por que você não trouxe o Jr. para brincar com as crianças?
- É o final de semana dele com o pai. Acredita que depois de tanto tempo resolveu aparecer?
- Como assim, Jasmim? Jr.? Disse Bela, após quase se engasgar com o chá.
- Nós éramos inconsequentes, jovens com um gênio e um tapete mágico a nossa disposição. O Aladim era charmoso, esperto e envolvente. Entre uma aventura e outra, acabamos nos descuidando. O resultado foi, que ele fugiu da responsabilidade com tapete, lâmpada e papagaio. Meu pai, sempre foi meu maior apoio, muito compreensivo. Falou Jasmim, um pouco entristecida com a lembrança.
Jasmim, ainda relata, que hoje o pai está velhinho a beira da morte. Como filha única, era sua missão se preparar para assumir o reino nas arábias. Ela desconfia, que Aladim reapareceu 10 anos depois, tentando reconquistá-la por este motivo.
- Nossa gente, como a Cindy demora né?! Fala Aurora, tentando quebrar o clima de drama.
Blinblón!
Branca vai atender a porta.
- Cindy, você não morre mais hoje. Fala a Branca com descontração.
- Já estavam falando mal de mim? Risos. Eu estava num evento. Fala Cinderela.
- Nossa que carma esses eventos de blogueira! Brinca Bela.
Cinderela era uma socialite muito elegante, que já estava no quarto casamento, sendo esse, com um figurão de 70 anos. Ela, não precisava contar detalhes de sua nova vida, pois todas já sabiam um pouco dos seus passos e modelitos, diante do publicado diariamente no “Closet da Cindy”.
O papo é interrompido, quando um dos filhos de Branca, entra na sala todo molhado, manchando o piso. A mãezona logo providencia toalha e retorna as amigas.
- Credo Branca! Como você aguenta tantos filhos? Diz a Cinderela
- E o seu Cindy é pra quando? Ignora Branca.
- Uiiiiii, pra nunca amiga! Jamais vou querer um barrigão desses. Fala com cara de asco.
- Pessoal alguém tem notícias da Ariel e da Alice? Jasmim muda o assunto.
- A Ariel não pode vir, está visitado seu pai, no fundo do mar. Dizem por ai, que o casamento dela está passando por altas crises. Fofoca Aurora.
- E nossa caçulinha, Alice? Jasmim evita o boato da amiga.
- Bem pessoal, a notícia não é nada boa. Parece que ela tá num sanatório? Responde Bela.
- Credooo! O que aconteceu? Pergunta Cinderela.
- Vocês conhecem a imaginação da nossa amiga. No começo, todo mundo achava que era só uma menina de imaginação fértil. Mas ai, o tempo foi passando, ela foi crescendo e continuou com um mundo de fantasias... acabou pirando. Explica Bela.
- Que triste. Lamenta Aurora.
- É sim, deprimente! Hoje em dia, quem acredita viver em um país das maravilhas, só pode acabar louco mesmo! Filosofa Branca.

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