A Fadinha e o Tritão - Fim

Primeira parte.
Segunda parte.
Continuação.

Passaram-se alguns anos e a fadinha já não sabia pelo que procurava, ela apenas se aventurava em reinos de criaturas diferentes, algumas vezes enfrentando criaturas perigosas, sempre atrás de histórias sobre homens que foram achados nos mares, mas nunca passaram de boatos.

Até que um belo dia, nas margens da floresta ao observar uma linda casinha no campo, ela avistou o que parecia ser impossível. Tiss via o rapaz nos fundos da casa arrumando um cenário de algo que parecia ser um piquenique. Seu coração deu um salto com sua visão, mas sim, ela tinha certeza era ele! Berilo! Tis ainda não sabia como ele conseguira pernas, porém não haviam dúvidas. Ele continuava lindo, mesmo sem o brilho da sua pele e seus longos cabelos brancos, que agora encontravam-se curtos e com um tom castanho claro, contudo suas feições ainda eram as mesmas perfeitas de sempre. Em um impulso a fadinha se pôs a mostra com o seu tamanho humano e sua certeza estava confirmada quando de longe o rapaz a encarou com olhos surpresos. Foi como aquele primeiro olhar nas pedras, entretanto agora, também havia inquietação. Ele parecia imóvel a surpresa, quando a fadinha ia tomar a iniciativa de pular em seus braços, uma moça muito bonita apareceu carregando comidas sentando-se ao lado de Berilo, tirando-o do seu transe. Agora o coração de Tis apertou-se angustiado, sentindo-se traída. Lágrimas caiam aos montes, seu ímpeto, não levou-a longe, apenas foi para uma tronco no alto de uma árvore chorar diante sua raiva incontrolada. Agora tudo fazia menos sentido ainda.

Não demorou até ela escutar a voz dele se aproximando:

- “Acalântis!”. Disse o tritão com cautela, mas quase ofegante.

Ela saltou de volta para o chão, sem dizer uma palavra apenas encarando-o com rancor.

- “Onde você esteve durante todo esse tempo?” falou ele com mais calma.

A fadinha se aproximou em um momento de ódio, deu um sorriso zombeteiro, junto a uma lágrima que escorria involuntariamente.

- “Onde eu estive? Eu procurei por você Berilo, eu esperei por você dias. Eu estava lá a sua espera. Enquanto você ganhava pernas para se divertir com uma jovem humana.” disse a fadinha com palavras tremulas e em um tom de revolta.

-“Não Tis, me ouça, não é o que você está pensando.” Berilo tentou manter a calma, mas se expressando num tom quase incontrolado também.

A fadinha olhou para o lado tentando conter as lágrimas, ela queria dar uma resposta, porém sua cabeça parecia não querer funcionar. Berilo se aproximou ainda mais.

- “Tis eu passei dias te esperando e você também não apareceu, agora eu acredito que você tenha um bom motivo, mas naquele período eu pensei que havia sido largado, que você não ia querer viver aquele romance impossível para sempre. Então, eu procurei meu pai e renunciei a minha raça, eu tive que aprender a andar, me alimentar sozinho, eu quase me tornei um humano selvagem. Até que recebi ajuda de camponeses solidários. Eu tentei ir a sua procura, mas as pessoas não acreditam em fadas, me chamaram de louco. Tudo o que consegui sobre o seu povo foram lendas.” Explicou o tritão em um tom cauteloso.

A fadinha acreditava nele, então se sentiu culpada. Agora era sua vez de se explicar...

- “Eu fiquei presa, sem poder sair por semanas, as pessoas no meu reino desconfiaram. Fugi assim que pude e te esperei por dias, te procurei em seu reino com o encantamento da bolha... pensei que você pudesse ter se perdido nos mares, fugido para outros povoados nos oceanos, arranjado uma sereia... não sei. Comecei a voar pelos bosques, sem esperança, a procura de um indício seu...” Murmurou a fadinha em uma voz tremula.

- “Bem, parece que nos temos um desencontro aqui?!” Falou Berilo chegando bem perto. “Nós tínhamos os mesmos medos, chegamos as mesmas conclusões precipitadas e nos arriscamos por amor.” Ele disse numa voz calma.

- “Bê, eu ainda te amo!” disse a fadinha, que agora encarava os mesmos olhos verde água que ela conhecia. A fadinha agora pôde reparar que os arranhões das guelras ainda estavam presentes em seu pescoço, só que agora como cicatrizes.

- “Eu também te amo minha fadinha” disse enquanto alisava o rosto dela.

Porém, antes que eles chegassem ao beijo, Tiss se afastou.

- “Mas e ela? Vocês não estão juntos?” perguntou com medo da resposta.

Berilo pareceu pensar por um momento, parecia nervoso, porem respirou e disse:

-“Escute Tis, é uma longa história... Eu a conheci durante minha procura por ti, eu sentia fome e a família dela me deu casa e comida, nós nos tornamos bons amigos. Até que ela apareceu grávida dizendo-me que o amor dela havia a abandonado. Eu senti que devia ajudá-la, nós casamos e viemos morar distante da sua família para que eles não desconfiassem de que a criança não possa ser meu filho. Ela sabe que já fui um tritão e sempre soube quem foi meu grande amor, nós respeitamos isso.” A história fluía dos lábios de Berilo, porem o nervosismo ainda estava presente. “Antes de se juntar a nós eu gostaria de pedir antes um favor, não é uma condição, é apenas um favor.”

- “De que forma eu posso ajudar?” Murmurou a fadinha, que acreditava na história.

- “Eu gostaria que você procurasse pelo amado dela, ela cuidou tanto tempo de mim eu não quero que ela fique sozinha grávida. Hoje eu sei que ela o perdoaria.”

- “Sim eu posso amenizar o sofrimento de quem ama, não quero que ninguém passe pelo que nós passamos. Vou fazer o possível.” Disse a fadinha determinada.

Berilo deu as informações que sabia para facilitar a busca de Tiss e mostrou um desenho que a sua companheira havia feito dele. Então ele a pegou num beijo arrebatador, ainda com a mesma virilidade do tritão que ela conhecera na beira do mar.

Tis partiu imediatamente, seguindo o rumo indicado por Berilo. Ela disfarçou a suas asas para poder andar nos povoados humanos sem ser percebida, levou alguns dias, mas ela achou o rapaz. Ele estava jogado em uma ruazinha em um sono profundo segurando uma garrafa de run. Ao se aproximar a fadinha percebeu que apesar do seu aspecto lamentável, ele era muito bonito. Acalântis deu um ponta pé no rapaz para que ele pudesse acordar. Quando levantou, parecia desorientado, abriu os olhos devagar e cambaleou um pouco ao olhar para cima, seus olhos eram negros exatamente como seus cabelos bagunçados.

- “O que voxe pensa que táá faxendo.” disse ele embriagado ainda.

- “Eu tenho notícias que podem lhe interessar.” Disse a fadinha.

- “Voxê tem uuuma... garrafa de run ai?” disse o rapaz entre soluços.

 -“Não.” respondeu a fadinha.

- “Então... nãão me interrressa.” Disse o bêbado.

- “Nem se forem informações sobre o Grazina?” Jogou Tis.

A reação não foi como Tis esperava, o rapaz arregalou os olhos e logo começou a chorar. Ela o ajudou a levantar e foram até a uma pensão que havia perto dali. A fadinha tinha algum ouro e pediu um quarto para que o rapaz pudesse recompor sua sobriedade. A fadinha esperou até o dia seguinte, o rapaz parecia outro muito mais limpo e de barba feita agora, mas ainda parecia triste e desorientado, ao vê-lo assim, Acalantis pode entender porque a linda moça havia se apaixonado. Ele se dirigiu até ela.

- “Yurio” estendeu a mão o rapaz.

- “Acalântis, mas pode me chamar de Tis.” Retribuiu a fadinha.

- “O que você tem para me dizer?” Perguntou nervosamente o rapaz.- “Eu vim te buscar para que você possa ver seu filho que está para nascer.”

- “Meu filho...” pensou ele com um leve sorriso. “Eu pensei que Grazina jamais iria me perdoar... como ela está? É verdade que ela se casou com Berilo?” agora havia um pouco de remorso na voz do rapaz.

- “Ela está bem e casada com Berilo sim, porem eles não passam de bons amigos. Na verdade ela só casou-se com ele porque você havia fugido.”

- “O pai dela me ameaçou e logo depois me subornou para que eu saísse da cidade, ele definitivamente não gostava nem de mim nem da minha família. Eu sabia que seria impossível viver aquele romance em paz, então eu aceitei, para o próprio bem dela. Eu não sabia que ela estava grávida, se não eu teria a levado comigo.” Ele disse levando as mãos a cabeça. “Eu fui covarde. Eu não consegui passar muito tempo longe dela, e voltei para levá-la comigo... então ela já havia ido embora com Berilo e eu descobri da sua gravidez, me disseram que era dele, mas eu sei que é meu.” Disse ele num tom de desespero.

- “Acalme-se Yurio, vai ficar tudo bem, Berilo me disse que ela te perdoa. Eu posso te levar onde eles estão.”

A fadinha levou Yurio aos bosques e revelou suas asas e seu segredo ao belo rapaz. Ela podia movê-lo no ar também.

Depois da pequena viagem eles chegaram até a casinha simpática de Berilo. Eles bateram na porta com ansiedade, mas ninguém atendeu. A fadinha resolveu entrar, a porta estava aberta.

- “Cadê ela Tis?” perguntou Yurio com ansiedade.

Tudo o que encontraram foi uma casa vazia.

- “Devem ter saído apenas por um momento, logo voltam.” Disse a fadinha tentando disfarçar sua angustia ao ver casa vazia, aquela velha sensação de deja vu bateu.

- “Tis, tem um bilhete aqui, ele está com o seu nome.”

Ele entregou o bilhete a ela. Seu coração acelerou e o frio na barriga era inevitável. Ela hesitou ao abrir, até que tomou coragem e começou a ler.

Me desculpe,
Grazina realmente esteve grávida de Yurio, porém a criança já havia nascido quando te encontrei. Nós estamos sobre feitiço, nos transformando em tritões para vivermos em família no fundo do mar de volta ao meu reino. Meu pai disse que apoiaria minha decisão seja qual fosse e eu optei por retornar, eu não sabia que há encontraria, já havia perdido as esperanças. Grazina nunca perdoou Yurio, mas eu realmente precisava que você o encontrasse, só o verdadeiro amor pode quebrar o feitiço e ele é o dela e você é o meu. Quando te encontrei quis jogar tudo para o alto, mas eu havia prometido que estaria com ela, pela nossa amizade, além de que seria muito arriscado ela passar a mutação sozinha com o filho. Por isso, menti. Tive medo de que você não compreendesse. O encantamento foi feito um dia antes de eu te ver nas margens da floresta, no sétimo dia completaremos a mutação antes do pôr do sol. Na praia onde nos encontramos pela primeira vez. Eu deixei nas mãos do destino, eu sei, mas também sei que o nosso amor é maior do que qualquer magia.
Ainda te espero,
Com amor,
Berilo.

- Hoje é o sexto dia...

E antes que Yurio pudesse perguntar o que aquilo significava, Acalantis o entornou com sua magia e voou o mais rápido que pode. Dali para a praia onde haviam se conhecido era um dia de viagem e já estava para escurecer. Tiss explicou o que havia escrito na carta, para o rapaz durante o caminho.

Acelerando e desviando das criaturas da floresta do jeito que podia, ela seguiu a viagem velozmente, sem cessar. O sol do dia seguinte já estava começando a baixar e ela se aproximava do seu destino.

Quando chegou nas pedras, teve um choque ao ver Grazina com o filho nos braços e Berilo segurando o seu ombro, sentados nas pedras, de costas para eles, o cenário era assustador, o choro da criança acompanhava o grito dos dois, enquanto passavam pela mutação. Yurio, também estava parado, mas reagiu antes dela com um grito.

- “GRAZINAAAA...”

Os dois saíram correndo em direção aos seus amados. Quando chegaram perto puderam ver os efeitos da transformação. A dor certamente vinha das guelras abertas, a pele estava descamando e as pernas estavam coladas. Logo eles ganhariam rabos de peixe.

- “Berilo, o que está acontecendo? Você não pode ir...” Falou a fada desesperada.

- “Eu sabia que você viria.” Disse ele ofegante.

As guelras estavam cada vez mais abertas, ele estava sem ar e não conseguia falar. Também, não possuía o controle de fechá-las. Em um ímpeto de salvamento, ela o beijou, na esperança de que aquela fosse uma prova de amor suficiente para salvá-lo da magia, mas nada aconteceu. Ela percebia que Yurio já se desesperava, chorava com o pequeno filho, se transformando em peixe nos seus braços, enquanto segurava a mão de Grazina que lutava contra a mutação.

- “Berilo, por favor me diga o que fazer... Eu te amo Berilo, eu não quero te perder novamente.” Disse enquanto se jogava no corpo gélido do quase tritão, que se contorcia no chão, em forma de um abraço.

Ela podia escutar os gritos de Yurio pedindo aos deuses, para que o amor deles pudesse ser vivido mais uma vez. E então, eles viram três pequenas explosões de luz acontecerem. Acalântis fechou os olhos e segurou forte a mão de Berilo e não sabe dizer exatamente em qual momento perdeu os sentidos.

Quando ela acordou, Berilo estava lá deitado, como se estivesse dormindo, ainda de mãos dadas. Do outro lado estava Yurio sentado ninando seu pequeno, com a cabeça de Grazina ainda desacordada em seu colo. 

E o mais importante, com exceção de Acalantis, todos eram humanos.

Grazina e Yurio decidiram recomeçar juntos, com seu filho. Mudaram de povoado e de vida, bem longe da família da moça que os renegaram.

Berilo e Acalantis continuaram o seu conto-de-fadas cheio de amor. Uma relação que ainda era considerada impossível, pois ele, agora era humano e ela ainda uma fada evadida de suas origens. Um casal que permaneceria lutando, enquanto vivessem, por uma vida feliz. Pois se houver um fim, já terá valido a pena viver. 

Comentários

  1. Lovely post!!!!!

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    ─────────▀▐█▀─── Feliz fin de semana... B E S I T O S

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  2. Oláa! Adoreiii seu blog ♥

    Da uma passadinha no meu blog, tem varias coisas legais, e por favor, se inscreve , vou amar rs
    bjsss e até a próxima

    http://www.sugerindobeleza.com/

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  3. Que blog mais amável!! Vou dar sempre uma passadinha por aqui <3 bjs
    http://senhoritaparadoxal.blogspot.com.br/

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  4. Oii
    Você é bem descritiva, isso é ótimo!
    Você descreve bem as características dos personagens e as ações.
    Na minha história também tem uma fada.
    Eu adoro o gênero fantasia.

    http://karinapinheiro.com.br/blog/

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  5. Texto muito bom de se ler *-*

    Bom semana :*

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  6. Vou ler as outras partes pra entender.

    www.iasmincruz.com

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  7. Muito bom!!! Adorei :) parabéns!!!

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