A Fadinha e o Tritão - Parte II

Veja a primeira parte aqui. Continuação...

Mais uma tarde chegava e ansiosamente Tis voava para Berilo, sua joia do mar. Agora o assunto fluía como já se conhecessem há anos, um contando ao outro sobre seus costumes e como eram os seus reinos, entre beijos e olhares apaixonados. Um dia a fadinha teve uma grande ideia.

- “Eu poderia conhecer seu reino?” se ofereceu com um largo sorriso.

- “Eu daria um jeito se houvesse como. É muito perigoso, também. Se te virem não sei o que poderia acontecer.” Disse ele com uma expressão confusa.

- “Berilo, por que tanta discórdia? Eu não entendo, tentei perguntar as pessoas do meu reino, mas ninguém fala, o assunto é temido. Pelo o que sei, foi uma guerra onde morreram muitos de nós e as pessoas evitam falar, pois a lembrança dos que estiveram presente é muito dolorosa”.

- “No meu reino, todos sempre têm muita raiva quando este assunto é mencionado. Mas pelo que sei, nossos povos eram aliados, vivíamos em harmonia. Cada um, cuidando da sua parte na natureza. Até que um dia houve um romance, entre uma sereia do nosso reino e um humano, houve magia negra envolvida, corações partidos. As fadas e gnomos tomaram partido dos humanos. Meu pai conta, que os humanos vinham aos montes em barcos com redes e arpões. Eles não teriam chance, se estes não fossem enfeitiçados por magia das fadas. As redes eram como imãs e os arpões perseguiam os sereianos por onde quer que nadassem. Muitas fadas estiveram presente durante as batalhas para conjurar os feitiços. Segundo meu pai, foi uma sangria”.

- “Eu sinto muito. Imagino o remorso e a dor dos anciões. Não sei quantas fadas, gnomos, tritões ou humanos se foram nesta batalha... Mas se pudéssemos ter paz novamente, eu sei que teríamos. Somos seres pacíficos, tenho certeza, de que meu povo jamais viveria uma guerra novamente.” Disse Tiss, entre lágrimas.

- “E é por isso, que não tenho ódio como os outros, eu vejo a pureza em seus olhos. Vejo, que você não é culpada pelo o acontecido”. Disse Berilo tocando sua face.

- “Eu gostaria de conhecer de perto o seu povo. Ver de perto, para um dia contar que vocês não são maus”.

- “Nós não somos maus, porém há muito rancor. Seria muito perigoso que alguém te visse, até que eu possa falar com meu pai sobre nós”.

- “Há um jeito de submergi discretamente, mas não por muito tempo.” disse Tiss.

- “Ok Tis! Me mostre” disse o tritão curioso.

Então a fadinha reduziu ao seu tamanho real, mais ou menos do tamanho de um polegar, logo em seguida, fez uma magia onde se envolvia dentro de uma bolha de oxigênio. Ser fada do ar tem lá suas outras vantagens, além de voar mais rápido por ai. Berilo pareceu realmente feliz, mas pediu cuidado, a fadinha não poderia ser vista de forma alguma, pois ele não sabia qual seria a reação dos outros sereianos.

O tritão mergulhou abrindo suas guelras e logo em seguida a fadinha foi atrás, sempre colada ao seu corpo. Parecia um nado sem fim para o fundo dos oceanos, até que ela pode ver corais fluorescentes iluminando algo que pareciam uma espécie de casas em cavernas, só que no lugar das montanhas estavam lá corais rochosos. Eles estavam seguros em volta das algas, a fadinha se encantou com o som que podia ouvir das lindas sereias que passavam por ela.

- “Cuidado! Tape os ouvidos. Elas estão caçando, nosso canto pode ser fatal para outras espécies.” Sussurrou Berilo.

O tritão explicava cada detalhe do que eles viam, fazendo Tis cada vez mais deslumbrada com a beleza e a rotina natural dos sereianos. Até que ele a levou em um lugar cheio de corais coloridos, mais próximo à superfície e aos peixes inofensivos, ali eles estavam a sós. Logo a fadinha percebeu que era uma espécie de santuário para o tritão.

- “Eu queria poder ficar ao seu lado para sempre.” Murmurou Berilo.

A fadinha sentiu vontade de abraçá-lo, porém a bolha não permitia o contato. De repente, ela percebera que a respiração se tornava mais ofegante, o ar estava rarefeito. Quando o tritão se deu conta, a levou de maneira segura a superfície.

Assim que Acalantis, voltou a forma humana. Tornou o assunto.
- “Não há nenhuma maneira?”

- “Há somente uma maneira Tis! A de ir e nunca mais voltar. Eu queria poder ir e ficar com você para sempre, mas não posso deixar minha família. Teria que pedir um encantamento ao meu próprio pai, como se renunciasse a minha própria raça. Meu pai é um ser compreensivo, que se difere de vários outros, mas mesmo assim não sei se seria perdoado por deixá-lo.” Disse o tritão com olhos distantes.

No dia seguinte começavam as festas da primavera, as fadas tinham que trabalhar além da conta, para que toda a floresta pudesse florescer em harmonia. Depois de seus afazeres uma das anciãs resolveu ficar em sua cola, delegando mais e mais tarefas para Tiss. Sucederam-se os dias e a fadinha não conseguia livrar-se da companhia sábia, muitos diziam que ela conhecia encantos além do seu signo. A fadinha começará a achar verdade em meio aos boatos, poderia a anciã ver os problemas da alma? Cada dia era como se ela estivesse tentando impedi-la de fugir mais uma vez para os braços de Berilo. Não havia como avisá-lo, a ânsia a consumia.

Então, após algumas semanas, Acalântis resolveu parar de fingir, deixou uma carta para sua família e seu povo explicando a sua decisão e se foi. Ela sabia o perigo que estava correndo, como uma fada sozinha poderia ser frágil diante dos seres da floresta escura, mesmo assim, ela foi antes do sol nascer.

Ela voou até as pedras, esteve lá por dias no mesmo ritual, até o sol se pôr, mas ele não apareceu. A fadinha passou frio, fome e medo na floresta, porém nada disso era mais forte do que suas dúvidas sobre o que poderia ter acontecido: “Será que ele havia desistido de mim?” “Será que ele ainda estava lá?” “Será que apareceu uma graciosa sereia, um amor possível no tempo da sua ausência?” “Será que ele desistiu do amor puro entre nós?”. A cada pensamento o nó em sua garganta se fazia, cada vez mais apertados, como um nó de marinheiro. Lágrimas foram inevitáveis.

Tiss não aguentaria mais nem um dia de sofrimento, estava decidida. Sem hesitar ela se fez envolta na bolha novamente, nos seus 4cm de fadinha para não chamar atenção. Ela se pôs no mar e procurou o tritão aonde pôde, sempre escondida entre as algas. Nada dele, nem mesmo em seu santuário de corais estava. Ela passou um tempo no local pensando nos momentos em que haviam passado juntos, até que foi interrompida do seu transe com aproximação de um casal de sereianos, ela se escondeu observou seus rostos, mas nenhum deles era o de Berilo. Quando teve a oportunidade, foi para superfície. Mais perguntas se fizeram em sua cabeça “Será que ele havia ido embora?”.

A fadinha decidiu fugir do mar. Nada fazia sentido em sua cabeça, ela voou por todo o reino épico procurando por uma resposta, que não encontrava. Ela sabia que era improvável encontra-lo em meio aos bosques, mas mesmo assim mantinha uma esperança.  

Continua...

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